Mrs. Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores, naquele dia.
Mas porque o terá feito? Com tanta criadagem, de boas remunerações até, que não se queixam e sorriem às ordens recebidas como a quem lhes dá o devido no final do mês, porque terá dito Clarissa que iria, ela própria, naquele específico dia, comprar as flores? Sim, seria a anfitriã duma festa, mas já tantas hospedou sem ir por seus passos à florista escolher e pagar pelos adornos que tão a coloram e perfumam, a si e às suas festas.
Se pouco impressionante fosse a sua triunfante e primaveril asserção, o acto culminá-la-ia, porque Clarissa Dalloway, de facto, naquele dia, foi comprar as flores.
Para quem nunca teve a deliciosa honra de conhecer a elegância personificada, Clarissa não dava festas para que fosse dito depois, nos dias que se passavam, pelos cafés e pelos chás, pelos corredores dos parlamentos e por vezes pela própria Câmara dos Comuns, que a sua festa tinha sido um sucesso, como era habitual. É que na alta sociedade que Clarissa integra em todo o seu cabimento e acabamento em folhos e bordados, poucas são as ladies que se podem gabar duma congratulação de lordes e ministros e respectivas cônjuges, por causa da tão bem sucedida festa daquele fim-de-semana passado. Que maior elogio se pode esperar e desejar quando essas festas, geralmente, que é notável a excepção que tão bem Clarissa constitui, canalizam a formalidade dum estado industrial e pragmático para alguns pares de salas e umas dúzias de sofás que do seu pitoresco conjunto resulta o maior dos aborrecimentos? Um tédio, enfim
Mas não as de Mrs. Dalloways, sempre tão agradáveis que se prolongam até horas quase indecentes. Só que Clarissa não continuava a dar as suas festas para afamar o seu requinte: fazia-o porque gostava de tornar confortáveis as vidas tão enfadonhas da sociedade exageradamente de topo. Pobres coitados, sentia-lhes nos olhares atarefados e cerimoniosos, como se toda a sua vida fosse um funeral e um casamento simultâneos, onde não conseguiam sentir com autenticidade nem berrar mas que puta de seca. Era feliz ao dar ânimo e um toque de vida àqueles pobres desgraçados que decidiam o seu país. O seu sucesso talvez resultasse da sua vontade, mas não interessa questioná-lo, que era tirar-lhe o charme todo.
Mas, e então, porque terá, naquele dia, ido Mrs. Dalloway comprar, ela própria, as flores?















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Being obvious is not allowed.
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Through the darkness of futures past
The magician longs to see
One chants out between two worlds
Fire walk with me
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